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Altos Tatras

Seguímos na direcção a Starý Smokovec, uma das várias estâncias de neve dos Altos Tatras; senti que entrámos no passado, grandes hoteis apalaçados do antigamente, alguns recuperados, outros não tanto; a aproximação fez-se por uma estrada pouco movimentada (estamos fora da época da neve), primeiro por zonas arborizadas, mais perto por uma paisagem desflorestada como que por uma área atingida por um acidente nuclear. Encontrar o hotel foi difícil, como ninguém falava inglês,demos várias voltas à vila até encontrarmos uma tabuleta que indicava o caminho para o hotel Sorea Hrebienok (1.250m) por uma estreita estrada com proibição de circulação automóvel (o cable car que poderia proporcionar a subida até ao hotel terminara às 16,30 e ninguém nos falou em levar mochilas para carregar as nossas tralhas às costas! ).

O check-in neste (estranho) hotel foi tanto decepcionante como hilariante, recuávamos aos tempos da ocupação comunista neste antigo sanatório de 1928 e tomávamos conhecimento de que não poderíamos descer e subir com o nosso carro durante a estadia (esqueceram-se foi de o dizer quando me obrigaram a pagar toda a estadia com 2 meses de antecedência por transferência bancária) se o fizéssemos seríamos interpelados pela polícia (o que seria interessante dado que também não falariam inglês), que o jantar seria das 17,30 às 19h, que serviço de lavandaria só nos nossos mais excitantes sonhos e que nas vilórias em redor nem pensar numa lavandaria pública. Descobriríamos que tinhamos que reservar os pratos escolhidos para o jantar de véspera, que os membros dos sindicatos e seus famíliares a que pertence a cadeia Sorea para além de terem 30% de desconto, chegavam antes da hora às refeições, nomeadamente o pequeno-almoço e fariam uma eficaz acção de “spring-cleaning” a toda a comida disponível em buffet (nomedamente o pãozinho ... o que até me lembrou um escuteiro e um Mouro numa viagem a Marrocos durante o jantar no Obelix), sendo depois difícil a reposição dos produtos esgotados pelas dificuldades linguísticas e pelo apertado controlo de stocks que imperava. Quando eu pedia um expresso, tiravam os necessários grãos de café do respectivo saco para dentro do moedor e com essa estricta dose tiravam-me a bica (sempre com água a mais, mesmo que as chávenas fossem pequenas, tinham que as encher ...). As casas de banho dos quartos para além dos traços do tempo tinham um poliban construído em alvernaria, forrado a azulejos brancos e o lavatório estava dentro deste, sendo o chuveiro usado tanto para lavar as mãos como para tomar o duche, o papel higiénico cinzento e pouco macio lembrava-me um triste director do antigamente, da empresa onde trabalhei, que decidiu equipar as instalações sanitárias da sede do Porto com papel de jornal criteriosamente e doutamente cortado; evidentemente que as roupinhas sujas da montanha tiveram que ser lavadas no quarto, escorridas na varanda com vista para a montanha, secas no aquecedor e no varão do poliban. Foi o único estabelecimento onde não havia acesso à internet Wi-fi e que os 2 computadores Dell disponibilizados para todos os hóspedes eram equipados com processadores que eu pensava nunca terem existido, sem praticamente memória RAM para arrancarem, anti-virús fora de prazo, teclados (Eslovacos) gastos, onde era impensável encontrar vários caracteres típicos do Português. 

Perdoem que me entusiasmei com estes pequenos pormenores chatos, mas não resisti !
(junto a reclamação endereçada ao director de marketing do grupo Sorea, já que não há sinal de qualquer CEO e à qual não foi, como seria de esperar, dada qualquer resposta)

O tempo não nos favoreceu e por isso os trilhos na montanha não foram tão percorridos quanto estava planeado. Tínhamos mapas topográficos feitos na república Checa, com percuros marcados até para bicicletas, com tempos de subida e descida entre os diferentes pontos. No entanto, todos os percursos estavam excelentemente marcados, recorrendo a cores, nos diferentes pontos tabuletas em madeira com indicações e tempos que me pareceram adequados, havendo sempre bastantes grupos de alunos visitando as montanhas com os seus professores.

Mesmo abaixo do hotel havia lindíssimas cascatas (lembrou-me o Gerês), percorrendo a Magistrala cruzando lindíssimos cursos de água e cascatas até Skalnaté Pleso 1.700m (com um maravilhoso lago entre as montanhas) onde esperávamos subir de teleférico (fechado para manutenção) a um dos cumes mais altos - o pico Lomnický com 2.643m; depois de um café nesta estação, descemos de teleférico para Tatranská Lomnica, onde apanharíamos o comboio eléctrico de volta para Starý Smokovec e subiríamos no cable car para o hotel.

Fizémos algumas compras que ajudaram a amortizar a viagem, nomeadamente casacos de neve de excelente qualidade. Esta é uma zona onde queremos voltar com tempo (e bom tempo) para explorarmos as montanhas, experimentarmos o ambiente nas chatas e se não tiver o meu nome na lista negra do grupo Sorea, para o mesmo hotel, está claro que não se livram de nós tão fácilmente !  Ao hotel chamámos carinhosamente de “Gulag”.

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